"Aos 15 dias de setembro de 1903, reuniram-se no salão Grau, sito à Rua 15 de Novembro, nesta capital, os abaixo firmados, afim de tratarem da fundação de uma sociedade, que tivesse por fim dedicar-se aos jogos de foot-ball
Presidiu a sessão o sr. Francisco França Junior, servindo eu [Alberto Siebel] de secretário.
Á sociedade foi dado o nome de Grêmio Foot-ball Porto Alegrense".
Não gostaria de tirar o foco da Libertadores mas os acontecimentos recentes (que anunciam a saída da Globo da concorrência do C13 e a "tendência" do Sr. Paulo Odone Ribeiro seguir o mesmo caminho dos dissidentes) me remeteram diretamente ao nosso maior documento, já mais do que centenário. Como disseram aqueles que marcaram o momento mais importante da minha vida, mesmo antes de eu ter nascido, o nosso único e exclusivo fim é dedicar-se aos jogos de futebol. E, parece, ninguém mais lê isso.
Ao contrário de muitos flautistas de plantão, que se preocupam com o resultado do adversário, eu sou um torcedor do Grêmio. Eu tenho orgulho de ter ido para a segunda divisão e ter voltado campeão. Não me importo com o que os outros dizem. Me importo com a reformulação que isso trouxe aos valores dos gremistas e a força que tiramos daquele episódio impossível. Não titubeio na hora de dizer que Grêmio e Náutico virou um clássico. E fico extremamente triste em saber que esse jogo pode não acontecer mais como uma partida de futebol.
Pelos caminhos que os clubes irresponsáveis estão tomando, corremos o risco de termos vinte grandes clubes brasileiros e mais de duzentos miseráveis. Uma diferença abismal, do tamanho do Gauchão, entre os times da primeira e das outras divisões. A certeza da queda do que sobe e o retorno do que cai (pior do que é hoje). Nunca mais um clube como o Bahia vai subir da terceira para a primeira. Adeus jogos no Heriberto Hulse, no Anacleto Campanella, nos Aflitos, no Castelão. Se o Grêmio voltar a um desses lugares vai ser para mostrar todo o seu poderio financeiro contra um mendigo. Golias contra uma pulga. Não é exagero: diz-se que o Grêmio, sozinho, por três anos, vai ganhar mais dinheiro que TODOS os times da segunda divisão no mesmo período.
E fica pior: se o famigerado e maldito Grêmio receberá essa banana, como ficam os queridinhos? Se fosse mantida a diferença entre a "primeira linha" e nós, da faixa 3, os "times mais queridos do Brasil" ganhariam 24 milhões a mais do que nós. E eu realmente acho que essa diferença não vai ser mantida - esses times ganharão mais ainda, pois se acham "empreendedores" (uma tradução mal feita para o egocentrelês que eles falam do termo em português "pródigos", ou seja, aqueles que gastam o dinheiro que tem sem se preocupar em receber alguma coisa por isso). Haja estádio lotado e torcida empurrando para ganhar disso tudo.
O futebol brasileiro é tão legal porque juntando diferença de poder aquisitivo, robalheira e má administração, o resultado é o sonho que cada torcedor tem de ganhar essa joça, contra tudo e contra todos. E isso porque, o tempo todo, a ruindade do campeão mostra que é possível que consigamos desbancar e ocupar o trono no próximo ano. Agora, se um Abramovich conseguisse entrar aqui, ia ter luta, mas cada vez menos times iriam pensar em conquistar o brasileiro. Essa cota individualizada de transmissão leva tendencialmente a um cenário onde a Globo decide quem pode ser o campeão, dando muito mais dinheiro a uns do que aos outros.
Assim, apoiar o que está sendo sugerido pelo eixo do mal é deixar o futebol de lado em nome do dinheiro burro. É aceitar um bife para deixar de lado um quilo de arroz e feijão. Quero que o Grêmio seja campeão porque joga mais que os outros times, e não porque recebe mais do que eles. De caravana da miséria já chega o Ruralito. Gostaria de pedir encarecidamente que o CD do Grêmio não deixe que o nosso presidente realmente tome essa posição em nome do clube. Uma decisão dessas, de roer a corda, parece mais com a posição de um político que não quer perder o apoio da mídia mais poderosa do que de um presidente preocupado com o que escreveram os fundadores do tricolor. O presidente não pode fazer isso. Não sem o consentimento de todos nós, que somos o Grêmio.
Eu não quero que o Grêmio deixe o clube dos 13 por merreca. Acima de tudo, quero jogar futebol com adversários à altura, para o título valer alguma coisa. E tu? Chegou a hora da tua manifestação.
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sábado, 26 de fevereiro de 2011
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