sábado, 26 de fevereiro de 2011

A posição do presidente está tomada: agora, é hora do Grêmio se posicionar

"Aos 15 dias de setembro de 1903, reuniram-se no salão Grau, sito à Rua 15 de Novembro, nesta capital, os abaixo firmados, afim de tratarem da fundação de uma sociedade, que tivesse por fim dedicar-se aos jogos de foot-ball

Presidiu a sessão o sr. Francisco França Junior, servindo eu [Alberto Siebel] de secretário.

Á sociedade foi dado o nome de Grêmio Foot-ball Porto Alegrense".

Não gostaria de tirar o foco da Libertadores mas os acontecimentos recentes (que anunciam a saída da Globo da concorrência do C13 e a "tendência" do Sr. Paulo Odone Ribeiro seguir o mesmo caminho dos dissidentes) me remeteram diretamente ao nosso maior documento, já mais do que centenário. Como disseram aqueles que marcaram o momento mais importante da minha vida, mesmo antes de eu ter nascido, o nosso único e exclusivo fim é dedicar-se aos jogos de futebol. E, parece, ninguém mais lê isso.

Ao contrário de muitos flautistas de plantão, que se preocupam com o resultado do adversário, eu sou um torcedor do Grêmio. Eu tenho orgulho de ter ido para a segunda divisão e ter voltado campeão. Não me importo com o que os outros dizem. Me importo com a reformulação que isso trouxe aos valores dos gremistas e a força que tiramos daquele episódio impossível. Não titubeio na hora de dizer que Grêmio e Náutico virou um clássico. E fico extremamente triste em saber que esse jogo pode não acontecer mais como uma partida de futebol.

Pelos caminhos que os clubes irresponsáveis estão tomando, corremos o risco de termos vinte grandes clubes brasileiros e mais de duzentos miseráveis. Uma diferença abismal, do tamanho do Gauchão, entre os times da primeira e das outras divisões. A certeza da queda do que sobe e o retorno do que cai (pior do que é hoje). Nunca mais um clube como o Bahia vai subir da terceira para a primeira. Adeus jogos no Heriberto Hulse, no Anacleto Campanella, nos Aflitos, no Castelão. Se o Grêmio voltar a um desses lugares vai ser para mostrar todo o seu poderio financeiro contra um mendigo. Golias contra uma pulga. Não é exagero: diz-se que o Grêmio, sozinho, por três anos, vai ganhar mais dinheiro que TODOS os times da segunda divisão no mesmo período.

E fica pior: se o famigerado e maldito Grêmio receberá essa banana, como ficam os queridinhos? Se fosse mantida a diferença entre a "primeira linha" e nós, da faixa 3, os "times mais queridos do Brasil" ganhariam 24 milhões a mais do que nós. E eu realmente acho que essa diferença não vai ser mantida - esses times ganharão mais ainda, pois se acham "empreendedores" (uma tradução mal feita para o egocentrelês que eles falam do termo em português "pródigos", ou seja, aqueles que gastam o dinheiro que tem sem se preocupar em receber alguma coisa por isso). Haja estádio lotado e torcida empurrando para ganhar disso tudo.

O futebol brasileiro é tão legal porque juntando diferença de poder aquisitivo, robalheira e má administração, o resultado é o sonho que cada torcedor tem de ganhar essa joça, contra tudo e contra todos. E isso porque, o tempo todo, a ruindade do campeão mostra que é possível que consigamos desbancar e ocupar o trono no próximo ano. Agora, se um Abramovich conseguisse entrar aqui, ia ter luta, mas cada vez menos times iriam pensar em conquistar o brasileiro. Essa cota individualizada de transmissão leva tendencialmente a um cenário onde a Globo decide quem pode ser o campeão, dando muito mais dinheiro a uns do que aos outros.

Assim, apoiar o que está sendo sugerido pelo eixo do mal é deixar o futebol de lado em nome do dinheiro burro. É aceitar um bife para deixar de lado um quilo de arroz e feijão. Quero que o Grêmio seja campeão porque joga mais que os outros times, e não porque recebe mais do que eles. De caravana da miséria já chega o Ruralito. Gostaria de pedir encarecidamente que o CD do Grêmio não deixe que o nosso presidente realmente tome essa posição em nome do clube. Uma decisão dessas, de roer a corda, parece mais com a posição de um político que não quer perder o apoio da mídia mais poderosa do que de um presidente preocupado com o que escreveram os fundadores do tricolor. O presidente não pode fazer isso. Não sem o consentimento de todos nós, que somos o Grêmio.

Eu não quero que o Grêmio deixe o clube dos 13 por merreca. Acima de tudo, quero jogar futebol com adversários à altura, para o título valer alguma coisa. E tu? Chegou a hora da tua manifestação.

PS.: já deu teu lance? A gurizada agradece. O tempo está acabando...

5 comentários:

Rafael disse...

Caro Fagner,
Achei excelente a exposição deste ponto de vista em relação à saída do imortal do C13.
No entanto, vejo esta mudança como um caminho natural para o futebol.
Receio que a permanência do Grêmio no C13 represente morrermos abraçados a essa "âncora" limitadora do crescimento. Ao passo que aqueles que se desliguem do C13 e se alinhem ao pensamento da Rede Globo tenham ganhos maoires e transformem-nos em um time sem expressão.

Pedro disse...

Galera, a CBF e a Globo são podres. Eles sempre vão batalhar pelo próprio dinheiro e pela perpetuação do poder deles. Claro que eles vão oferer mais dinheiro agora, assim o C13 aparece como vilão.

A longo prazo, permanecer com um campeonato nacional sendo organizado pela CBF significa consolidar ainda mais essa máfia terrível que comanda o nosso futebol. A liga deve ser criada imediatamente.

Em nenhum campeonato nacional decente pelo mundo, o campeonato é organizado pela confederação que controla a seleção. Isso é monopólio. Da CBF e da Globo.

A única chance de isto acabar é se nós, torcedores (que na verdade somos produtos que a Globo vende para os seus anunciantes), dermos um basta. Não é a hora de ficar olhando só para o nosso Grêmio, e sim para o futebol nacional, que vive um momento muito importante.

A Globo não está oferecendo dinheiro por ser boazinha, e sim porque ela pretende colher muito mais no futuro. E esse dinheiro é nosso, do Grêmio e de todos os outros clubes do país.(inclusive do co-irmão, o que minimiza um pouco as mazelas da Globo)

Douglas e Dady disse...

Saem os cariocas e o curithia, e a globo agora nao participa da licitação? CAPAZZZZZ que a CBf ta por traz. Se eles tivesem eleito o Candidato deles, ja teriam feito a proposta com valor pros clubes, pro presidente do c13 e pra CBF.

Malditos politicos e interesseiros no futebol.

San Tell d'Euskadi disse...

Fagner,

Ao colocar a frase "De caravana da miséria já chega o Ruralito." dentro do contexto desse texto, você acabou por fazer a maior defesa dos campeonatos estaduais que alguém poderia ter feito, expondo porque viraram o que são hoje. Provavelmente, nem era essa a sua intenção, mas tocou bem na ferida: quanto mais PARELHO, melhor o torneio.

Abraço.

Fagner disse...

Rafael, cada um tem a sua opinião, mas, realmente, não sei bem o que tu referiu como âncora limitadora e nem mesmo do crescimento de quem. Não existe maneira de eu, como desportista, crescer se meus adversários forem ruins. Se alguém tem dúvida disso é só ver que belíssimo futebol se joga na LA da Oceania. Achar que ter mais dinheiro é crescer é esquecer o futebol.

San Tell, para mim, o Ruralito não vale nada justamente porque perdeu essa graça (e tem piorado muito nos últimos anos). Realmente eu nem pensei em falar sobre isso no texto e saiu "sem querer", no meio dos argumentos que justificavam outra coisa. Isso mostra que tu realmente leu o texto. Agradecemos a atenção ao blog.

Saludos,
Fagner